segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Entrevista com Jennifer Case, ex-atriz de filmes pornográficos

Este conteúdo foi retirado do blog Vida e Castidade:
http://vidaecastidade.blogspot.com/2011/02/entrevista-com-jennifer-case-ex-atriz.html
 

Por April Garris

A seguir apresento uma entrevista que fiz com uma grande amiga minha, Jennifer Case. Ela deixou a indústria pornográfico faz apenas poucos anos, e embora ainda esteja em recuperação, e trabalhando para reconstruir sua vida, ela gentilmente permitiu que eu a entrevistasse.

Jenni, muito obrigado por permitir essa entrevista.


Você é muito bem vinda, tudo que puder fazer para ajudar, é uma alegria.




Jennifer Case


Faz quanto tempo que você deixou a indústria pornográfica?


Eu oficialmente deixei há três anos, depois de me converter a Cristo. Antes, eu usava minha experiência com pornografia para promover minha carreira de dançarina e minhas atividades como prostituta etc.


Quantos anos você tinha quando começou pela primeira vez na indústria pornográfica, e por quanto tempo ficou nela?


Eu era muito jovem, tinha pouco mais de 18 anos quando comecei a fazer pornografia, e eu diria que estive nisso por cerca de dez anos. Eu realmente não sabia como cuidar de mim mesma, e parecia ser uma maneira fácil de sobreviver. Eu fiz cerca de 20 filmes.


Você se importaria em descrever como chegou a entrar na pornografia?


Eu comecei fazendo outras coisas primeiro, como dançar em um bar de strip. Eu era contratada para festas, e como acompanhante. Eu precisava do dinheiro, não tinha terminado os estudos, e já vivia por minha própria conta naquele ponto. Eu não tinha idéia no que estava me metendo naquela época.


De que você se lembra mais de sua primeira experiência? Foi muito traumática para você?


Essa primeira vez não foi como esperava. Estava chateada pelo fato do meu agente usar documentos falsos mostrando que tinha sido testada para AIDS e outras DST’s. Eu nunca fui testada. Eu pensava que seria eu e uma mulher – menos amedrontador, certo? Mas apareceram dois homens. Já muitas coisas me alertavam que tudo seria ruim.


E sobre a sua infância? Eu conheço muitas mulheres na indústria pornográfica com passado de abuso sexual, estupro, negligência e outros tipos de traumas. Você acha que algum evento de sua infância fez com que você ficasse mais suscetível à idéia de entrar no mundo da pornografia?


Definitivamente eu acho que a minha infância teve grande influência na minha entrada na pornografia. Meu pai era totalmente ausente, e meus pais se divorciaram quando eu tinha oito anos. Aos catorze anos fugi de casa, e passei por abrigos, orfanatos, instituições, e outros lugares, até que cheguei aos 17 anos. Eu penso que muitas coisas da minha infância me induziram a uma carreira na indústria do sexo.




Você mencionou que seu pai era ausente. Eu sei que esse é o caso para a maioria das atrizes pornográficas. Comigo também foi assim. Como você definiria seu estado emocional durante sua carreira na pornografia?

Na verdade é muito difícil de lembrar muitas coisas, porque eu bloqueei a maior parte. Eu penso que emocionalmente eu basicamente “não estava ali”, e eu me drogava com maconha e álcool e outras coisas, para que não tivesse que lidar com meus sentimentos, que eram tão fortes. Eu me vi depressiva e solitária, e meu comportamento era errático e de muita autodestruição. Eu olho para o passado agora e vejo que havia muita mágoa e amargura também. Minha vida era um verdadeiro caos.


Jenni, muitas pessoas que vêem pornografia acreditam que as mulheres adoram o que estão fazendo, e que estão simplesmente encenando suas fantasias. Essa é REALMENTE a verdade?

Essa NÃO é a verdade sobre a pornografia, é uma mentira. As mulheres que vivem essa mentira não gostam de fazer pornografia, e se dizem que gostam, é uma maneira de mentir para si mesmas para fazer parecer melhor. Quando eu fazia pornografia, eu queria que terminasse o mais rápido possível, e minha única motivação era o dinheiro. Eu pensava que estava fazendo o que era necessário para sobreviver naquele momento. Minhas fantasias consistiam normalmente em viver uma vida normal, eu fantasiava sobre como seria a vida se eu não estivesse naquele pesadelo. Quando você assiste pornografia, você está vendo uma mentira, feita para destruir você.


Quando você estava na pornografia, qual era sua opinião sobre os homens que viam pornografia – ou sobre os homens em geral?

Eu cresci aprendendo a odiar os homens de um modo geral, e não tinha nenhum respeito pelos homens que viam pornografia. Eu achava que os homens eram somente pervertidos, e só queriam a mesma coisa das mulheres. Ponto. E que eles tratavam as mulheres de uma forma horrível. Eu tenho uma idéia diferente dos homens agora. Eu os vejo como vítimas da pornografia, também. Eu sei que os homens querem o mesmo que as mulheres, muito mais do que só sexo, querem amor. Nós todos queremos amor. Nós todos temos um vazio a preencher, e algumas pessoas tentam preencher com pornografia. Alguns homens pagam por causa do vício em pornografia em preço muito alto, de perder as suas famílias e os empregos. Para mim, é muito trágico, e triste, que a pornografia destrói as pessoas que a fazem, e destrói as pessoas que a vêem. Isso é claro para mim agora.


Nós duas sabemos que muitas mulheres na indústria pornográfica sofrem doenças mentais. Eu sei que eu mesma sofri depressão grave, mesmo depois de deixar a indústria. Como você definiria sua condição mental quando deixou a indústria pornográfica?

Agora eu sei que, depois de anos vivendo aquela vida, eu fui traumatizada por ela. Era como suportar anos e anos de opressão e abusos de todos os tipos. Quando eu deixei a pornografia, e me livrei das drogas, etc., minhas emoções vieram à tona. Ao longo dos anos, sofri depressão, ansiedade, e muitos outros problemas, e tive que fazer terapia e tomar medicação. Qualquer pessoa que entra naquele meio já com uma doença mental só faz piorar.


E com relação a problemas físicos?

O principal problema que enfrentei ao longo dos anos foram as DST’s. Estava o tempo todo com infecções, muitas infecções diferentes. Eu deixei Hollywood por estar muito doente com clamídia. Meu abdômen às vezes doía tanto que eu tinha que voltar para casa. Meus órgãos genitais foram tão abusados que, em determinado ponto, um doutor que me examinou chamou um grupo de estudantes de medicina para olhar os meus órgãos danificados. Eu sabia o quanto aquele “negócio” deixa você mais velha antes do tempo e prejudica seu corpo.


Como você se recuperou pessoalmente do tempo que passou na pornografia? Foi muito difícil?

Eu sinto que o que me permitiu a recuperação foi Deus na minha vida. Deus me dá uma esperança que eu não tinha antes. Os últimos anos foram muito difíceis, mas tem valido a pena. O que tem me ajudado é o constante apoio de outras pessoas, a oração, a palavra de Deus, e muito amor. O que tem sido mais difícil é abandonar velhos hábitos, e tentar conseguir um “emprego de verdade”. Tudo é como tentar viver uma vida nova, de um modo melhor. Eu acho que minha recuperação é um processo que continua, e vai levar tempo. Eu estive no meio por muito tempo, e sofri muitos danos. Eu sei muito mais sobre pornografia agora do que jamais soube no tempo que estava atuando.


Se você pudesse dizer uma coisa para os homens que estão lendo isso agora, o que diria?

Homens, DEUS AMA VOCÊS! Eu também amo, e sempre vou rezar por todos vocês, para que as cadeias que aprisionam sejam quebradas. Vocês são escravos da pornografia, tanto quanto uma atriz. Se vocês estão vendo pornografia, ou são viciados, vocês estão tentando preencher um vazio dentro de vocês, que somente Deus pode preencher. Toda vez que vocês olham para pornografia, estão fazendo o vazio ficar maior, e isso vai destruir sua vida. Sua maldade é um veneno, uma mentira, e uma droga. Se vocês pensam que podem manter as coisas escondidas, saibam que Deus vai trazer tudo para a luz, para dar um basta em tudo, e curar vocês. Essas mulheres são preciosas, e merecem ser amadas, tanto quanto vocês. Há uma pessoa real do outro lado das imagens que vocês estão assistindo, e vocês estão destruindo sua vida e a vida de seus filhos. Em todo material pornográfico está uma mulher que é uma filha, filha de uma outra mulher. E se fosse a sua própria filhinha? Você pode, na verdade, estar contribuindo para a morte de alguém! Atrizes e atores pornográficos morrem frequentemente de AIDS, overdose de drogas, suicídios, etc. Por favor, parem de ver pornografia.


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April Garris esteve envolvida na indústria pornográfica em 2001, por aproximadamente 6 meses, e fez algo em torno de 15 a 20 filmes. Ela deixou a indústria no final de 2001, mas continuou a lutar contra o vício de drogas, doenças mentais e depressão grave. Ela começou a experimentar a cura verdadeira quando se converteu em 2005, e desde então tem vivido uma vida de autêntica liberdade.


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Trechos da entrevista traduzidos e adaptados.
Para ver a entrevista completa, acesse o site “Who Does it Hurt”:
http://www.whodoesithurt.com/april-garris/314-april-garris-a-jennifer-case

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Para mais artigos sobre Pornografia, visite:
http://vidaecastidade.blogspot.com/2009/05/artigos-sobre-pornografia.html

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A verdadeira definição de IGREJA!

Na catequese do dia 25/01/2012 o Santo Padre, entre outras coisas, fez a verdadeira definição sobre o que é Igreja:

"(...)«Podemos dizer que na oração sacerdotal (se refere aqui ao trecho Jo 17, 1-26) de Jesus se cumpre a instituição da Igreja... Precisamente aqui, no acto da última Ceia, Jesus cria a Igreja. Porque, o que é a Igreja, a não ser a comunidade dos discípulos que, mediante a fé em Jesus Cristo como enviado do Pai, recebe a sua unidade e é envolvida na missão de Jesus de salvar o mundo, conduzindo-o ao conhecimento de Deus? Aqui encontramos realmente uma verdadeira definição da Igreja. A Igreja nasce da oração de Jesus. E esta prece não é apenas palavra: é o gesto em que Ele se “consagra” a Si mesmo, ou seja, se “sacrifica” pela vida do mundo» (cf. Jesus de Nazaré, II, 117 s.).
 
Jesus reza a fim de que os seus discípulos sejam um só. Em virtude desta unidade, recebida e conservada, a Igreja pode caminhar «no mundo» sem ser «do mundo» (cf. Jo 17, 16) e viver a missão que lhe foi confiada para que o mundo creia no Filho e no Pai que O enviou. A Igreja torna-se, então, o lugar em que continua a própria missão de Cristo: conduzir o «mundo» para fora da alienação do homem em relação a Deus e a si mesmo, para fora do pecado, a fim de que ele volte a ser o mundo de Deus."

Obs.: antes deste trecho, na própria catequese, o Papa também explica o que significa se Consagrar!



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI AO CORPO DIPLOMÁTICO ACREDITADO JUNTO DA SANTA SÉ PARA A TROCA DE BONS VOTOS DE INÍCIO DE ANO

O Papa Bento XVI faz uma série de reflexões de atos ocorridos no ano de 2011 e ressalta alguns pontos fundamentais como a educação dos jovens para a justiça e a paz, o apelo as autoridades que não se façam leis contrárias a natureza humana - no caso mais especifico a favor do aborto, ressalta a importância da família que "fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade", lembra também dos lamentáveis episódios violentos em nome da religião, e enfim, diversos outros fatores que nos distanciam da nossa dignidade de seres humanos, criados a imagem e semelhança de DEUS.

No final, o Papa Bento XVI encerra com os seguintes dizeres:

"Senhoras e Senhores Embaixadores, 

O nascimento do Príncipe da Paz ensina-nos que a vida não acaba no nada, que o seu destino não é a corrupção mas a imortalidade. Cristo veio para que os homens tenham a vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10, 10). «Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente»[5]. Animada pela certeza da fé, a Santa Sé continua a dar à Comunidade internacional o seu contributo próprio, guiada por um duplo intento que o Concílio Vaticano II – cujo cinquentenário se celebra este ano – definiu claramente: proclamar a sublime vocação do homem e a presença nele dum germe divino, e oferecer à humanidade uma cooperação sincera a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde[6]. Neste espírito, renovo a todos vós, extensivos aos membros das vossas famílias e aos vossos colaboradores, os meus votos mais cordiais para este novo ano.
Agradeço pela vossa atenção."

[5] Carta encíclica Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 2.
[6] Cf. Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 3.




Leia discurso na integra em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2012/january/documents/hf_ben-xvi_spe_20120109_diplomatic-corps_po.html

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

3ª pregação do Advento 2011 à Casa Pontifícia

Sexta-feira, 23 de dezembro de 2011, 15h08

Frei Raniero Cantalamessa
www.cantalamessa.org


A primeira evangelização das Américas
 

1. A fé cristã cruza o oceano
 
No dia 12 deste mês, o continente americano celebrou a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, que, no México, é uma festa de preceito. Feliz coincidência, nesta meditação, falarmos da terceira onda evangelizadora na história da Igreja: aquela que acompanhou a descoberta do novo mundo. Nunca como na história desta devoção Maria mereceu tanto o título de estrela da evangelização.
 

Vamos relembrar, com pinceladas, o desenrolar-se daquela empreitada missionária. Antes de tudo, uma observação. A Europa cristã, junto com a fé, exportou para o novo continente também as suas divisões. No fim dessa grande onda missionária, o continente americano vai reproduzir exatamente a situação da Europa: um Sul de maioria católica e um Norte de maioria protestante. Nós vamos abordar aqui somente a evangelização da América Latina, até porque foi a primeira que aconteceu logo após a descoberta do novo mundo.
 

Depois que Cristóvão Colombo, em 1492, voltou da viagem com a notícia da existência de novas terras, que ainda eram tidas como parte da Índia, a Espanha católica tomou, inseparavelmente misturadas, duas decisões: a de levar a fé cristã para os novos povos e a de estender sobre eles a soberania política espanhola. Com esta meta, conseguiram do papa Alexandre VI o reconhecimento do direito da Espanha a todas as terras descobertas cem milhas além dos Açores, e para Portugal as que ficassem antes dessa linha. 
Depois, a linha foi mexida em favor de Portugal, o que legitimou a sua posse do Brasil. Delineava-se, assim, inclusive linguisticamente, o rosto futuro do continente latino-americano.

Quando penetravam num país, as tropas divulgavam toda vez um requerimento que mandava os habitantes abraçarem o cristianismo e reconhecerem a soberania do rei da Espanha. Só alguns grandes espíritos, em primeiro lugar os dominicanos Antonio de Montesinos e Bartolomeo de Las Casas, tiveram a coragem de levantar a voz contra os abusos dos conquistadores e em defesa dos direitos dos nativos. Em pouco mais de cinqüenta anos, graças também à fragilidade e às divisões dos reinos locais, o continente já estava sob o domínio espanhol e, pelo menos nominalmente, sob domínio cristão.

Os historiadores recentes tendem a atenuar as sombras que o passado lançou nessa obra missionária. Primeiramente, ressalta-se que a maioria dos povos nativos sobreviveu com a própria língua e nos próprios territórios, tanto que puderam retomar e reafirmar depois a sua identidade e independência, ao contrário do que foi feito com as tribos indígenas da América do Norte, dizimadas. Devemos considerar também o condicionamento dos missionários à sua formação teológica. Tomando ao pé da letra o adágio “Extra Ecclesia nulla salus”, eles tinham convicção da necessidade de batizar o máximo de pessoas no tempo mais curto, para garantir a sua salvação eterna.

Vale a pena analisarmos um pouco melhor este axioma que teve tanto peso na evangelização. Foram Orígenes e principalmente São Cipriano que o formularam no século III. No começo, ele não se referia à salvação dos não cristãos, mas só à dos próprios cristãos, porque se dirigia aos hereges e aos cismáticos da época, para lembrar a eles que, rompendo a comunhão eclesial, viravam réus de uma grave culpa e se excluíam sozinhos da salvação. Era um axioma voltado aos que saíam da Igreja, e não àqueles que entravam nela.

Mais tarde, quando o cristianismo já era religião de estado, é que o axioma começou a ser aplicado a pagãos e judeus, com base na convicção, então comum, embora objetivamente errada, de que a mensagem àquela altura já era conhecida por todos, e refutá-la significava tornar-se culpados e merecedores de condenação.

Foi logo depois do descobrimento do novo mundo que aqueles limites geográficos se romperam drasticamente. A descoberta de povos inteiros vivendo fora de todo contato com a Igreja obrigou à revisão de uma interpretação tão rígida do axioma. Os teólogos dominicanos de Salamanca, e, depois, alguns jesuítas, começaram a adotar uma postura crítica, reconhecendo que era possível estar fora da Igreja sem ser necessariamente culpado e excluído da salvação. E mais: diante dos modos e métodos inaceitáveis com que o Evangelho tinha sido anunciado aos nativos em alguns casos, foi questionado pela primeira vez se eram mesmo culpados aqueles que, mesmo tendo conhecido o anúncio cristão, não o tinham abraçado (F. Sullivan, Salvation outside the Church?Tracing the History of the Catholic Response,Paulist Press, Nova Iorque, 1992).

2. Protagonistas: os frades


Este não é o contexto para dar um parecer histórico sobre a primeira evangelização da América Latina, é claro. No seu quinto centenário, em maio de 1992, aconteceu um simpósio internacional de historiadores, em Roma, sobre o assunto. No discurso aos participantes, João Paulo II afirmou: “Sem dúvida, nessa evangelização, como em toda obra do homem, houve acertos e erros, luzes e sombras. Mais luzes do que sombras, a julgar pelos frutos que encontramos depois de quinhentos anos: uma igreja viva e dinâmica que representa hoje uma parte relevante da Igreja universal” (14 de maio de 1992).

Por outro lado, naquela ocasião, alguns falaram da necessidade de uma “descolonização” e “desevangelização”, dando a impressão de preferirem que a evangelização do continente não tivesse jamais acontecido em vez de ter sido do jeito que conhecemos. Com todo o respeito devido ao amor pelos povos latino-americanos que movia esses autores, eu acredito que aquela opinião deve ser energicamente refutada.

A um mundo sem pecado, mas sem Cristo, a teologia mostrou preferir um mundo com pecado, mas com Cristo. “Oh, culpa feliz”, exclama a liturgia pascal no Exultet, “que nos permitiu tão grande redentor!”. Não deveríamos dizer o mesmo da evangelização de ambas Américas, do Sul e do Norte? A um continente sem “os erros e sombras” que acompanharam a sua evangelização, mas também sem Cristo, quem não preferiria um continente com tais sombras, mas com Cristo? Que cristão, de esquerda ou direita, especialmente se for sacerdote ou religioso, poderia dizer o contrário sem desprezar, por isso mesmo, a própria fé?

Eu li em algum lugar esta afirmação que compartilho por inteiro: “A coisa mais importante que aconteceu em 1492 não foi que Cristóvão Colombo descobriu a América, mas que a América descobriu Jesus Cristo”. É verdade que não era o Cristo integral do Evangelho, para quem a liberdade é o pressuposto da fé, mas quem pode pretender apresentar um Cristo livre de qualquer condicionamento histórico? Quem propõe um Cristo revolucionário, contestador das estruturas, diretamente engajado também na luta política, não esquece talvez alguma coisa de Cristo, como aquela afirmação de que “o meu reino não é deste mundo”?

Se na primeira onda evangelizadora os protagonistas foram os bispos, e na segunda os monges, nesta terceira os protagonistas indiscutíveis foram os frades, ou seja, os religiosos das ordens mendicantes, em primeiro lugar os franciscanos, dominicanos, agostinianos, e, num segundo momento, os jesuítas. Os historiadores da Igreja reconhecem que, na América Latina, “foram os membros das ordens religiosas que determinaram a história das missões e das igrejas” (Cfr. Glazik, op. cit., p. 708).

Quanto a isso, vale o parecer de João Paulo II de que “há mais luzes do que sombras”. Não seria honesto desconhecer o sacrifício pessoal e o heroísmo de tantos desses missionários. Os conquistadores eram movidos pelo espírito de aventura e pela sede do lucro, mas os missionários podiam esperar o quê quando deixavam pátria e convento? Eles não iam pegar, mas doar. Eles queriam conquistar almas para Cristo, não súditos para o rei da Espanha, mesmo compartilhando o entusiasmo nacionalista dos seus compatriotas. Quando lemos histórias ligadas à evangelização de um território particular, vemos o quanto os juízos genéricos são injustos e distantes da realidade. Eu acabei lendo in loco a crônica do início da missão na Guatemala e nas regiões vizinhas. São histórias de sacrifícios e peripécias inenarráveis. De um punhado de vinte dominicanos que partiram para o novo mundo e para as Filipinas, dezoito morreram na viagem.

Em 1974 aconteceu o sínodo sobre “a evangelização no mundo contemporâneo”. Em nota manuscrita feita no documento final, que a prefeitura da Casa Pontifícia teve a ideia de publicar no programa destas pregações, Paulo VI apontava:
“Bastará, para os religiosos, o que é dito [no documento]? Não seria de se agregar uma palavra sobre o caráter voluntário, empreendedor, generoso da evangelização dos Religiosos e das Religiosas? A sua evangelização deve depender daquela da Hierarquia e coordenar-se com ela, mas é de louvar-se a originalidade, a genialidade, a dedicação, tantas vezes de vanguarda e com um risco todo deles”.

Este reconhecimento se aplica em cheio aos religiosos protagonistas da evangelização da América Latina, em especial se pensarmos em certas realizações deles como as famosas reduções dos jesuítas no Paraguai, aquelas vilas em que os índios cristãos, a salvo dos abusos da autoridade civil, podiam instruir-se na fé, mas também fazer os seus talentos humanos darem frutos.

3. Os problemas atuais


Agora, como de costume, vamos passar para o hoje e ver o que nos diz a história da experiência missionária da Igreja, que reconstruímos brevemente. As condições sociais e religiosas do continente mudaram tão profundamente que, mais do que insistir no que podemos aprender ou desaprender daquele tempo, é útil refletir na tarefa atual da evangelização no continente latino-americano.

Houve, e ainda há, uma tal quantidade de reflexões e de documentos do magistério pontifício, do CELAM e das igrejas locais a este respeito, que seria presunçoso de minha parte pensar em acrescentar alguma novidade. Mas eu posso partilhar uma reflexão sugerida pela minha experiência em campo, já que preguei retiros a conferências episcopais, ao clero e ao povo de quase todos os países da América Latina, e várias vezes em alguns deles. Além disso, os problemas da América Latina neste campo não são afinal tão diferentes dos problemas do resto da Igreja.

Uma reflexão enfocaria a necessidade de superar uma polarização excessiva que está espalhada pela Igreja, mas que é particularmente aguda na América Latina, em especial nos anos passados: a polarização entre alma ativa e alma contemplativa, entre a Igreja do compromisso social com os pobres e a Igreja do anúncio da fé. Diante de qualquer diferenciação, nós somos sempre tentados, instintivamente, a escolher um lado e desprezar o outro. A doutrina dos carismas nos poupa dessa luta. O dom da Igreja católica é ser, justamente, católica, ou seja, aberta a acolher os dons mais diversos que provêm do mesmo Espírito.

A história das ordens religiosas mostra isso. Elas encarnaram instâncias diversas e às vezes opostas: a inserção no mundo e a fuga do mundo, o apostolado entre os doutos, como os jesuítas, e o apostolado no meio do povo, como os capuchinhos. Há espaço para uns e para outros. E precisamos de uns e de outros, já que nenhum pode realizar o Evangelho integral e representar Cristo em todos os aspectos da sua vida. Cada um deveria, portanto, se alegrar de que outros façam o que ele não pode: quem cultiva a vida espiritual e o anúncio da Palavra deve se alegrar porque existe quem se dedique à justiça e à promoção social, e vice-versa. É sempre válida a admoestação do Apóstolo: “Cessemos definitivamente de julgar uns aos outros!” (cf. Rm 14,13).

Uma segunda observação diz respeito ao problema do êxodo de católicos para outras denominações cristãs. Antes de mais, lembremos que essas denominações diversas não podem ser qualificadas indistintamente como “seitas”. Com algumas, incluindo os pentecostais, a Igreja mantém há anos um diálogo ecumênico oficial, o que ela não faria se as considerasse meramente como seitas.

A promoção desse diálogo, inclusive localmente, é o melhor meio para desanuviar o clima, isolar as seitas mais agressivas e desencorajar a prática do proselitismo. Alguns anos atrás, houve um encontro ecumênico de oração e pregação em Buenos Aires com participação do arcebispo católico e de líderes de outras igrejas, com sete mil pessoas. Ficou clara a possibilidade de uma relação nova entre os cristãos, bem mais construtiva para a fé e para a evangelização.

João Paulo II afirmou, num documento, que a difusão das seitas obriga a questionar o porquê, o que falta à nossa pastoral. A convicção que eu tenho, como fruto da experiência, e não só nos países latino-americanos, é a seguinte. O que puxa para fora da Igreja não são certas formas de piedade popular alternativa, que a maioria das outras igrejas e seitas, aliás, rejeitam e combatem. É um anúncio, parcial, mas incisivo, da graça de Deus, da possibilidade de experimentar Jesus como Senhor e Salvador pessoal, de pertencer a um grupo que se encarrega pessoalmente das necessidades da pessoa, que rezam por ela na doença quando a medicina não tem mais nada a dizer.

Se por um lado podemos nos alegrar porque essas pessoas acharam Cristo e se converteram, por outro é triste que elas tenham precisado deixar a Igreja para isso. Na maioria das igrejas que esses irmãos abraçam, tudo gira em torno da primeira conversão e da aceitação de Jesus como Senhor. Na Igreja católica, graças aos sacramentos, ao magistério, à riquíssima espiritualidade, existe a vantagem de não se ficar nesse estágio inicial, mas de se chegar à plenitude e à perfeição da vida cristã. Os santos são a prova. Mas é preciso que aquele início consciente e pessoal seja oferecido, e é nisto que o desafio das comunidades evangélicas e pentecostais nos estimula.

E a Renovação Carismática se revela, assim, mais do que nunca, segundo a palavra de Paulo VI, “uma chance para a Igreja”. Na América Latina, os pastores da Igreja estão notando que a Renovação Carismática não faz “parte do problema” do êxodo de católicos, como alguns acharam no começo, e sim que ela faz parte da solução. As estatísticas nunca mostram quantas pessoas ficaram na Igreja graças a ela, encontrando no seu âmbito o que outros procuraram fora. As numerosas comunidades nascidas no seio da Renovação Carismática, mesmo com restrições, e às vezes com desvios, presentes em toda iniciativa humana, estão na vanguarda do serviço da Igreja e da evangelização.

4. O papel dos religiosos na nova evangelização


Eu disse que não queria insistir na primeira evangelização. Mas temos que ficar com uma coisa dela: a importância das ordens religiosas tradicionais para evangelizar. O beato João Paulo II dedicou a elas a sua Carta Apostólica do V Centenário da Primeira Evangelização do continente, chamada, no original, “Los caminos del Evangelio”. A última parte trata precisamente dos “religiosos na nova evangelização”: “Os religiosos, que foram os primeiros evangelizadores, e contribuíram de modo tão relevante para manter viva a fé no continente, não podem faltar na convocação eclesial à nova evangelização. Os diversos carismas da vida consagrada tornam viva a mensagem de Jesus, presente e atual em todo tempo e lugar” (“Los caminos del Evangelio”, 24).

A vida de comunidade, o fato de terem um governo centralizado e lugares de formação de nível superior, foi o que permitiu que as ordens religiosas de então tivessem uma tarefa missionária tão vasta. Mas, hoje, como está essa força? Falando de dentro de uma dessas ordens antigas, eu posso me atrever a falar com certa liberdade. A rápida queda de vocações nos países ocidentais está determinando uma situação perigosa: a de se gastarem quase todas as próprias forças na satisfação das exigências internas da família religiosa em si: formação dos jovens, manutenção das estruturas e das obras, sem muitas forças vivas dedicadas ao círculo mais amplo da Igreja. Daí esse voltar-se para si mesmos. Na Europa, as ordens religiosas tradicionais se obrigam a reunir várias províncias em uma e a fechar dolorosamente uma casa atrás da outra.

A secularização, é claro, é uma das causas dessa queda nas vocações, mas não é a única. Comunidades religiosas recentes atraem filas de jovens. Na carta citada, João Paulo II exorta os religiosos e religiosas da América Latina a “evangelizarem a partir de uma experiência profunda de Deus”. Aqui está, acredito eu, o ponto: “uma experiência profunda de Deus”. É isto o que atrai as vocações e cria as premissas para uma nova onda eficaz de evangelização. O adágio “Nemo dat quod non habet”, “ninguém dá o que não tem”, vale como nunca nesta área.

O superior provincial dos Capuchinhos da região italiana das Marcas, e que é meu superior, escreveu para este Advento uma carta a todos os frades. Ele lança uma provocação que eu acho que faria bem que todas as comunidades religiosas tradicionais escutassem:
“Você, que lê estas linhas: imagine que você é o Espírito Santo. Sim, você leu certo: não apenas que está repleto do Espírito Santo, pelos sacramentos recebidos, mas que você é, mesmo, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. E, como tal, imagine que você tem o poder de chamar e conduzir um jovem numa estrada rumo à perfeição da caridade, que é a vida religiosa. Você teria a coragem de chamá-lo para a sua comunidade, com a certeza e a garantia de que a sua comunidade é o lugar que o ajudará seriamente a conseguir a perfeição da caridade no concreto da vida cotidiana? Em palavras pobres: se um jovem fosse viver alguns dias ou meses na sua comunidade, compartilhando a oração, a vida fraterna, o apostolado… ele se apaixonaria pela nossa vida?”.

Quando nasceram as ordens mendicantes, dominicanos e franciscanos, no começo do século XIII, as ordens monásticas pré-existentes também se beneficiaram deles e responderam ao chamado de uma pobreza maior e de uma vida mais evangélica, segundo o próprio carisma. Não deveríamos fazer o mesmo, hoje, nós, das ordens tradicionais, diante das novas formas de vida consagrada suscitadas na Igreja?

A graça dessas novas realidades é multiforme, mas tem um denominador comum chamado Espírito Santo, o “novo Pentecostes”. Depois do concílio, quase todas as ordens religiosas pré-existentes revisaram e renovaram as suas constituições, mas, já em 1981, o beato João Paulo II alertava: “Toda a obra de renovação da Igreja, que o concílio Vaticano II propôs e iniciou tão providencialmente, só pode se realizar no Espírito Santo, ou seja, com a ajuda de sua luz e da sua força” (carta apostólica A Concilio Constantinopolitano I,25 de março de 1981).
“O Espírito Santo”, dizia São Boaventura, “vai onde é amado, convidado, esperado” (Sermão para o IV Domingo depois da Páscoa, 2, Ed. Quaracchi, IX, pág. 311). Temos que abrir as comunidades ao sopro do Espírito que renova a oração, a vida fraterna, o amor por Cristo e, com ele, o zelo missionário. Olhar para dentro, para as próprias origens e para o próprio fundador, mas também olhar para frente.

Olhando para a situação das ordens antigas no mundo ocidental, surge espontânea a pergunta que Ezequiel ouviu sobre os ossos secos: “Poderão estes ossos reviver?”. Os ossos secos de que se fala no texto não são os dos mortos, mas dos vivos. São o povo de Israel em exílio, que diz: “Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança se desvaneceu, estamos perdidos”. São sentimentos que afloram, às vezes, em nós também, que pertencemos a ordens religiosas de antiga data.

Sabemos a resposta, cheia de esperança, que Deus dá para essa pergunta. “Porei em vós o meu Espírito e retornareis à vida. Colocar-vos-ei sobre a vossa terra e sabereis que eu, o Senhor, falei e fiz acontecer”. Temos que acreditar e esperar também para nós e para a Igreja toda o que diz o final da profecia: “O Espírito entrou neles: tornaram à vida e se levantaram. Eram um grande exército; grandíssimo” (cf. Ez 37, 1-14).

Neste dia 12, eu dizia no começo, a América Latina celebrou a festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Discute-se muito a historicidade dos fatos que originaram essa devoção. Mas o que se entende por fato histórico? Há muitos fatos que aconteceram de verdade, mas não são históricos, porque “histórico”, no sentido mais verdadeiro, não é tudo o que aconteceu, mas só o que, além de ter acontecido, incidiu na vida de um povo, criou algo novo, deixou marca na história. E que marca a devoção à Virgem de Guadalupe deixou na história religiosa do povo mexicano e latino-americano!

É de grande significância simbólica que, no começo da evangelização do continente americano, em 1531, na colina doTepeyac ao norte da Cidade do México, a imagem da Virgem tenha sido estampada no manto, na tilma, de São Juan Diego como “la Morenita”, ou seja, com os traços de uma humilde moça mestiça. Não se poderia dizer mais sugestivamente que a Igreja, na América Latina, é chamada a ser, e quer ser, indígena com os indígenas, crioula com os crioulos, toda para todos.


Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=284693

4ª pregação do Advento 2011 à Casa Pontifícia

Terça-feira, 27 de dezembro de 2011, 12h13

Frei Raniero Cantalamessa
www.cantalamessa.org


A atual onda de evangelização

1. Um novo destinatário do anúncio

“Prope est iam Dominus: venite, adoremus”: O Senhor está próximo: venham, adoremos. Começamos essa meditação, como inicia a liturgia das horas nestes dias antes do Natal, para que também essa faça parte de nossa preparação para a solenidade..

Terminemos hoje as nossas reflexões sobre a evangelização.Tentei reconstruir, nas meditações anteriores, três grandes ondas de evangelização na história da Igreja. Certamente poderíamos ter lembrado de outros grandes empreendimentos missionários, como o que começou São Francisco Xavier no século XVI no Oriente – Índia, China e Japão – como também a evangelização do continente Africano no século XIX pelas mãos de Daniel Comboni, do cardeal Guglielmo Massaia e de tantos outros. No entanto, há uma razão pela escolha feita, que eu espero que tenha podido transparecer das reflexões realizadas.

Aquilo que muda e que distingue as várias ondas evangelizadoras lembradas, não é o objeto do anúncio – “a fé, transmitida aos santos uma vez por todas”, como é chamada pela Carta de Judas -, mas os destinatários da mesma, respectivamente o mundo greco-romano, o mundo bárbaro e o novo mundo, ou seja, o continente americano.

Então nos perguntamos: quem é o novo destinatário, que nos permite falar da atual evangelização de hoje, da quarta onda de nova evangelização? A resposta é: o mundo ocidental secularizado e, em alguns aspectos, pós-cristão. Esta especificação que já aparecia nos documentos do Beato João Paulo II, tornou-se explícita no ensinamento do Santo Padre Bento XVI. No Motu Proprio com o qual ele criou o “Pontifício Conselho para a Promoção da nova evangelização”, ele fala de “muitos países de antiga tradição cristã, que se tornaram refratários à mensagem do Evangelho (Bento XVI, Motu Proprio “Ubicunque et semper”).

No Advento do ano passado tentei caracterizar este novo destinatário do anúncio, resumindo-o em três pontos: cientificismo, secularismo e racionalismo. Três tendências que levam a um resultado comum, o relativismo.

E juntamente com a aparição no cenário de um novo mundo para evangelizar, vimos cada vez o surgimento de uma nova categoria de anunciadores: os bispos, nos primeiros três séculos (sobretudo no III), os monges na segunda onda e os frades na terceira. Também hoje testemunhamos o surgimento de uma nova categoria de protagonistas da evangelização: os leigos. Não se trata evidentemente da substituição de uma categoria pela outra, mas de uma nova parcela do Povo de Deus que se acrescenta às outras, permanecendo sempre os bispos, encabeçados pelo Papa, os guias oficiais e os responsáveis últimos pela tarefa missionária da Igreja.

2. Como o rastro deixado por um grande navio

Eu disse que ao longo dos séculos mudaram os destinatários do anúncio, mas não o anúncio em si. Porém, devo esclarecer esta última afirmação. É verdade que não pode mudar a essência do anúncio, mas pode e deve mudar a maneira de apresentá-lo, as prioridades, a partir de que ponto começar o anúncio.

Resumimos os progressos realizados pelo anúncio do Evangelho para chegar até nós. Há, antes de tudo, o anúncio feito por Jesus que tem por objeto central a notícia: “Já chegou a vós o Reino de Deus”. Depois desta fase única e irrepetível, que chamamos de “o tempo de Jesus”, acontece, depois da Páscoa, “o tempo da Igreja”. Nesse, Jesus não é mais o anunciador, mas o anunciado; a palavra “Evangelho” não significa mais “a boa nova de Jesus”, mas a boa nova sobre Jesus, ou seja, que tem por objeto a Jesus e, em particular , sua morte e ressurreição. Isto é o que São Paulo entende sempre com a palavra “Evangelho”.

É necessário, porém, estar atentos para não separar muito os dois tempos e os dois anúncios, aquele de Jesus e aquele da Igreja, ou, como se costuma dizer faz tempo, o “Jesus histórico” do “Cristo da fé”. Jesus não é somente o objeto do anúncio da Igreja, a coisa anunciada. Ai do reduzir apenas a isso! Seria esquecer a ressurreição. No anúncio da Igreja é o Cristo ressucitado que, com o seu Espírito, ainda fala; ele é também o sujeito que anuncia. Como diz um texto do Concílio: “Cristo está presente na sua palavra, pois é Ele quem fala quando lemos as Escrituras na Igreja.” (Sacrosanctum concilium, n. 7).

Partindo do anúncio inicial da Igreja, o kerygma, podemos resumir com uma imagem o desenvolver-se sucessivo da pregação da Igreja. Pensemos no rastro deixado por um navio. Começa com uma ponta, que é a ponta do navio, mas vai se espalhando sempre mais, até perder-se no horizonte e tocar as duas margens opostas do mar. É o que aconteceu com o anúncio da Igreja; começou com uma ponta: o kerygma “Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação” (cf. Rm 4, 25, 1 Cor 15,1-3 ); de modo ainda mais significativo e sintético: “Jesus é o Senhor” (Atos 2, 36; Rm 10,9).

Uma primeira expansão deste ponto ocorreu com o nascimento dos quatro evangelhos, escritos para explicar aquele núcleo inicial, e com o resto do Novo Testamento; depois disso veio a tradição da Igreja, com seu ensinamento, a sua teologia, as suas instituições, as suas leis, a sua espiritualidade. O resultado final é uma imensa riqueza que nos faz imaginar precisamente o rastro do navio na sua expansão máxima.

Por tanto, neste ponto, caso queiramos reevangelizar o mundo secularizado, faz-se necessário uma escolha. Por onde começar? A partir de qualquer ponto do rastro deixado, ou pela ponta? A imensa riqueza de doutrina e de instituições podem se tornar uma desvantagem se queremos apresentar-nos assim ao homem que perdeu todo o contato com a Igreja e já não sabe quem é Jesus. Seria como colocar uma daquelas enormes e pesadas capas pluviais de brocado em cima de uma criança.

É necessário ajudar este homem a estabelecer uma relação com Jesus; fazer com ele o que Pedro fez no dia de Pentecostes com as três mil pessoas presentes: falar-lhes do Jesus que nós crucificamos e que Deus ressuscitou, levá-lo ao ponto no qual também ele, tocado no coração, peça: “O que devemos fazer, irmãos?” e nós responderemos, como disse Pedro: “Arrependei-vos, recebam o batismo, se ainda não o receberam, ou confessem-se se já são batizados”.

Aqueles que responderão ao anúncio se unirão, também hoje, como então, à comunidade dos crentes, escutarão o ensinamento dos apóstolos e tomarão parte na fração do pão; segundo o chamado e a resposta de cada um, poderão fazer próprio, aos poucos, todo este imenso patrimônio nascido do Kerygma. Nâo se aceita Jesus por causa da palavra da Igreja, mas se aceita a Igreja por causa da palavra de Jesus.

Temos um aliado neste esforço: o fracasso de todas as tentativas do mundo secular para substituir o Kerygma cristão por outros “gritos” e outros “slogans”. Costumo usar o exemplo da famosa pintura do pintor norueguês Edvard Munch, intitulada “O Grito”. Um homem encima duma ponte, sobre um fundo avermelhado, com as mãos ao redor de sua boca escancarada, emite um grito que, entende-se imediatamente, é um grito de angústia, um grito vazio, sem palavras, só o som. Parece-me a descrição mais eficaz da situação do homem moderno que, tendo esquecido o grito cheio de conteúdo que é o kerygma, se vê obrigado a gritar ao vazio da própria angústia existencial. Se, como alguém disse, “Deus é a direção à qual o homem lança seu próprio grito”, então “O Grito” de Munch é, a seu modo, uma oração.

3. Cristo, nosso contemporâneo

Agora, deixe-me tentar explicar por que é possível, no Cristianismo, recomeçar, a qualquer momento, da ponta do navio, sem que isto seja um fingimento mental, ou uma simples tarefa de arqueologia. A razão é simples: aquele navio ainda navega o mar e o rastro deixado ainda começa por uma ponta!

Há um ponto onde eu não concordo com o filósofo Kierkegaard, que também disse coisas maravilhosas sobre a fé e sobre Jesus. Um dos seus temas favoritos é aquele da contemporaneidade de Cristo. Mas ele concebe tal contemporaneidade como um tornar-nos um contemporâneio de Cristo. “Aquele que crê em Cristo – escreve – é obrigado a fazer-se um contemporâneo seu no rebaixamento.” (S. Kierkegaard, Exercício do cristianismo, I, E, in Opere, aos cuidades de C. Fabro, Florença 1972, p. 708) A idéia é que para acreditar realmente, com a mesma fé exigida aos apóstolos, é necessário prescindir dos dois mil anos de história e de confirmações sobre Cristo e colocar-se no lugar daqueles a quem Jesus dirigia sua palavra: “Vinde a mim, vós todos que estais cansados ​​e sobrecarregados e eu vos aliviarei “(Mateus 11, 28). Logo ele, um homem que não tinha uma pedra onde repousar a cabeça!

A verdadeira contemporaneidade de Cristo é outra coisa: é ele que se faz nosso contemporâneo, porque, tendo ressuscitado, vive no Espírito e na Igreja. Se nós nos fôssemos fazer contemporâneos de Cristo, seria uma contemporaneidade só intencional; mas, se é Cristo que se faz contemporâneio nosso, então é uma contemporaneidade real. De acordo com um pensamento arrojado da espiritualidade ortodoxa, “a anamnese é uma lembrança alegre que torna o passado ainda mais presente do que quando foi vivido.”Não é um exagero. Na celebração litúrgica da Missa, o evento da morte e ressurreição de Cristo se torna mais real para mim do que era na verdade para aqueles que testemunharam materialmente o evento, porque então havia uma presença “segundo a carne”, agora se trata de uma presença “segundo o Espírito”.

O mesmo quando se proclama com fé: “Cristo morreu pelos meus pecados, ressuscitou para a minha justificação, ele é o Senhor”. Um autor do século IV escreve: “Para cada homem, o princípio da vida é aquele, a partir do qual Cristo foi imolado por ele. Mas Cristo foi imolado por ele no momento em que ele reconhece a graça e se torna consciente da vida que lhe foi dada daquela imolação”.( Homilia pasqual do ano 387 , SCh 36, p. 59 s.)

Percebo que não é fácil e talvez nem mesmo possível dizer essas coisas para as pessoas, muito menos ao mundo secularizado de hoje; mas é o que nós, evangelizadores, temos que ter bem claro para tirar coragem disso e crer na palavra do evangelista João que diz: “Aquele que está em vocês é mais forte do que aquele que está no mundo” (1 Jo 4, 4).

4. Os leigos, protagonistas da evangelização

Dizia no início que, do ponto de vista dos protagonistas, a novidade, na atual fase da evangelização, são os leigos. Do seu papel na evangelização trataram o concílio na “Apostolicam Actuositatem”, Paulo VI na “Evangelii Nuntiandi”, João Paulo II na “Christifideles laici.”

As premissas desta chamada universal à missão já estão no Evangelho. Após o primeiro envio dos apóstolos em missão, Jesus, lê-se no Evangelho de Lucas, “designou outros setenta e dois, e os enviou dois a dois à sua frente a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir” (Lc 10, 1). Esses setenta e dois discípulos foram provavelmente todos aqueles que ele tinha reunido até aquele momento, ou ao menos todos aqueles que estavam dispostos a comprometer-se seriamente por ele. Jesus, portanto, envia todos os seus discípulos.

Conheci um leigo dos Estados Unidos, pai de família, que, ao lado da sua profissão, desempenha também uma evangelização intensa. É um sujeito bem-humorado e que evangeliza ao som de estrondosas gargalhadas, como só os americanos sabem fazer. Quando ele vai para um lugar novo, começa dizendo muito sério: “Dois mil e quinhentos bispos, reunidos no Vaticano, pediram-me para vir e anunciar-vos o evangelho”. As pessoas ficam naturalmente curiosas. Ele então explica que os 2.500 bispos são aqueles que participaram no Concílio Vaticano II e escreveram o decreto sobre o apostolado dos leigos (Apostolicam Actuositatem), que convida todos os leigos cristãos a participarem na missão evangelizadora da Igreja. E estava absolutamente certo de dizer “me pediram.” Essas palavras não são faladas ao vento, para todos e para ninguém; são dirigidas pessoalmente a cada leigo católico.

Hoje conhecemos a energia nuclear que se libera da “fissão” do átomo. Um átomo de urânio é bombardeado e “partido” em dois pelo impacto de uma partícula chamada nêutron, liberando energia neste processo. Começa daí uma reação em cadeia. Os dois novos elementos “fissionam”, ou seja, partem-se por sua vez, dois outros átomos, estes outros quatro, e assim por bilhões de átomos, de modo que a energia “liberada” no final, é imensa. E não necessariamente energia destrutiva, porque a energia nuclear também pode ser usada para fins pacíficos, em favor do homem.

Neste sentido, podemos dizer que os leigos são um tipo de energia nuclear da Igreja no plano espiritual. Um leigo alcançado pelo Evangelho, vivendo ao lado de outros, pode “contagiar” outros dois, estes, outros quatro, e como os leigos cristãos não são só algumas dezenas de milhares como o clero, mas centenas de milhões, eles podem realmente desempenhar um papel decisivo na difusão, no mundo, da luz benéfica do Evangelho.

Do apostolado dos leigos não se começou a falar somente com o Concílio Vaticano II. Já se falava há tempo. O que, no entanto, o concílio contribuiu foi o título com o qual os leigos contribuem no apostalado da hierarquia. Eles não são meros colaboradores chamados a dar o seu contributo profissional, o seu tempo e os seus recursos; são portadores de carismas, com os quais, diz a Lumen Gentium, estão aptos e prontos para assumirem obras e ofícios, úteis na renovação e à maior expansão da Igreja”. (L.G., 12)

Jesus quis que seus apóstolos fossem pastores de ovelhas e pescadores de homens. Para nós, do clero, é mais fácil ser pastores que pescadores; ou seja, alimentar com a palavra e com os sacramentos aqueles que veem à Igreja, e não ir em busca dos que estão distantes, nos ambientes mais diferentes da vida. A parábola da ovelha perdida se inverteu hoje em dia: noventa e nove ovelhas se distanciaram e uma só permaneceu no redil. O perigo que temos é de passarmos todo o tempo alimentando esta única que permaneceu e de não ter tempo, até mesmo pela falta de clero, para ir em busca das perdidas. Nisso a contribuição dos leigos se faz providencial.

A realização mais avançada neste sentido são os movimentos eclesiais. A sua contribuição específica para a evangelização é de oferecer aos adultos uma oportunidade de redescobrir o seu batismo e se tornarem membros ativos e engajados da Igreja. Muitas conversões de adultos e a volta à prática religiosa de “cristãos de nome” acontecem hoje dentro desses movimentos. Um dos propósitos do Congresso sobre a evangelização, ocorrido no passado mês de Outubro, foi justamente, eu acho, aquele de coletar as várias e originais formas de evangelização experimentadas por eles.

Recentemente, o Santo Padre Bento XVI voltou sobre a importância da família em vista da evangelização, falando de um “protagonismo” das famílias cristãs neste campo. “Como estão relacionados o eclipse de Deus e a crise da família, dizia, assim a nova evangelização é inseparável da família cristã”. (Bento XVI, discurso à Plenária do Pontifício Conselho para a família, no “L’Osservatore Romano”, 2 Dezembro, p.8.)

Comentando o texto de Lucas, onde se diz que Jesus “designou outros setenta e dois e os enviou dois a dois à sua frente a cada cidade e lugar aonde ele próprio devia ir ” (Lc 10, 1), São Gregório Magno escreve que os envia dois a dois , “porque menos que entre dois não pode haver amor”, e o amor é aquilo pelo qual os homens poderão reconhecer que somos discípulos de Cristo. Isso se aplica a todos, mas de uma maneira especial para dois: pai e mãe. Se eles já não podem fazer nada mais para ajudar seus filhos na fé, já fariam muito se, olhando para eles, seus filhos pudessem dizer entre si: “Vejam como papai e mamãe se amam “. “O amor é de Deus”, diz a Escritura (1 Jo 4, 7) e isso explica por que onde quer que haja um pouco de amor “verdadeiro, ali, Deus é sempre anunciado.

A primeira evangelização começa dentro das paredes de casa. A um jovem que lhe perguntava o que deveria fazer para ser salvo, Jesus dizia: “Vai, vende o que tens e dá aos pobres …, depois vem e segue-me” (Mc 10, 21); mas a outro jovem que queria deixar tudo e segui-lo, não o permitiu, mas lhe disse: “Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia” (Mc 5, 19).

Há um famoso canto espiritual negro intitulado “There is a balm in Gilead” “Há um bálsamo em Gilead” Algumas das suas palavras podem incentivar os leigos, e não somente eles, na tarefa da evangelização de pessoa a pessoa, de porta em porta. Diz:

“If you cannot preach like Peter, if you cannot preach like Paul, go home and tell your neighbor that Jesus died for all”.

“Se você não sabe pregar como Pedro, se você não sabe pregar como Paulo, vai para tua casa” e diga “a seus vizinhos: Jesus morreu por nós!”

Daqui a dois dias é Natal. É reconfortante para os irmãos leigos lembrar que ao redor da manjedoura de Jesus, além de Maria e José, estavam os seus representantes, os pastores e os magos.

O Natal no leva de volta à ponta da ponta do rastro do navio, porque tudo começou a partir daí, daquela criança na manjedoura. Na liturgia escutaremos proclamar “Hodie Christus Natus est, hodie Salvator apparuit”, “Hoje Cristo nasceu, hoje o Salvador apareceu”. Ouvindo-os, repensamos aquilo que dissemos da anamnese que torna o evento mais presente do que quando aconteceu pela primeira vez”. Sim, Cristo nasce hoje, porque ele realmente nasce para mim no momento que reconheço e creio no mistério. “O que me aproveita que Cristo tenha nascido uma vez em Belém, se não nascer de novo pela fé em meu coração?” São palavras pronunciadas por Orígenes e repetidas por Santo Agostinho e São Bernardo. (Orígenes, Comentário ao Evangelho de Lucas, 22,3 (SCh. 87, p. 302).

Façamos nossa a invocação escolhida pelo nosso Santo Padre para os seus votos natalícios desse ano e repitamos com todo o anseio do coração: fazemos nossa a invocação próprios escolhidos pelo nosso Santo Padre para o seu cartão de Natal deste ano e repeti-lo com todo o anseio do coração: “Veni ad salvandum nos”, Vem, Senhor, e salva-nos!


Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=284721

Catequese de Bento XVI - Oração na Sagrada Família

Quarta-feira, 28 de dezembro de 2011, 12h22

Catequese de Bento XVI - Oração na Sagrada Família - 28/12/2011

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Leonardo Meira - equipe CN Notícias)



CATEQUESE
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 28 de dezembro de 2011


Queridos irmãos e irmãs,

este nosso encontro desenvolve-se em um clima de Natal, inundado de íntima alegria devido ao nascimento do Salvador. Celebramos há pouco este mistério, cujo eco se expande na liturgia de todos estes dias. É um mistério de luz que os homens de todas as épocas podem reviver na fé e na oração. Exatamente através da oração nós nos tornamos capazes de aproximarmo-nos de Deus com intimidade e profundidade. Por isso, tendo presente o tema da oração, que estou desenvolvendo neste período nas
Catequeses, hoje gostaria de convidar-vos a refletir sobre como a oração faz parte da vida da Sagrada Família de Nazaré. A Casa de Nazaré, de fato, é uma Escola de Oração, onde se aprende a escutar, a meditar, a penetrar o significado profundo da manifestação do Filho de Deus, através do exemplo de Maria, José e Jesus.

Permanece inesquecível o discurso do Servo de Deus Paulo VI por ocasião de sua visita a Nazaré. O Papa disse que, na Escola da Sagrada Família, nós "compreendemos porque devemos ter uma disciplina espiritual, se queremos chegar a ser alunos do Evangelho e discípulos de Cristo". E acrescenta: "Em primeiro lugar, a lição do silêncio. Renasça em nós a valorização do silêncio, desta estupenda e indispensável condição do espírito; em nós, aturdidos por tantos ruídos, tantos rumores, tantas vozes de nossa ruidosa e hipersensibilizada vida moderna. O Silêncio de Nazaré ensina-nos o recolhimento, a interioridade, a atitude de prestar ouvidos às boas inspirações e palavras dos verdadeiros mestres" (Discurso em Nazaré, 5 de janeiro de 1964).

Podemos elencar alguns pontos sobre a oração, sobre a relação com Deus, da Sagrada Família, conforme as narrações evangélicas da infância de Jesus. Podemos partir do episódio da Apresentação de Jesus no templo. São Lucas narra que Maria e José, "concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor" (2,22). Como toda a família hebraica observante da Lei, os pais de Jesus dirigem-se ao templo para consagrar a Deus o primogênito e para oferecer o sacrifício. Movidos pela fidelidade à prescrição, partem de Belém e chegam a Jerusalém com Jesus, que tem, então, apenas quarenta dias; ao invés de um cordeiro de um ano, apresentam a oferta das famílias simples, isto é, duas pombas. Aquela da Sagrada Família é a peregrinação da fé, da oferta dos dons, símbolo da oração e do encontro com o Senhor, que Maria e José já veem no filho Jesus.

A contemplação de Cristo tem em Maria o seu modelo insuperável.  O rosto do Filho lhe pertence a título especial, porque é no seu ventre que se formou, tomando dela também uma semelhança humana. À contemplação de Jesus, ninguém se dedicou com tanta assiduidade quanto Maria. O olhar do seu coração concentra-se sobre Ele já no momento da Anunciação, quando O concebe por obra do Espírito Santo. Nos meses sucessivos, adverte, pouco a pouco, a Sua presença, até o dia do nascimento, quando os seus olhos podem fixar, com ternura materna, o rosto do filho, enquanto o envolve em faixas e o coloca na manjedoura. As lembranças de Jesus, fixadas na sua mente e no seu coração, marcaram cada instante da existência de Maria. Ela vive com os olhos sobre Cristo e valoriza cada uma de Suas palavras. São Lucas diz: "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração" (2,19), e assim descreve a atitude de Maria diante do Mistério da Encarnação, atitude que se prolongará em toda a sua existência: conservar todas as coisas, meditando-as no seu coração.

Lucas é o Evangelista que nos faz conhecer o coração de Maria, sua fé (cf. 1,45), sua esperança e obediência (cf. 1,38), sobretudo sua interioridade e oração (cf. 1,46-56), a sua livre adesão a Cristo (cf. 1,35). E tudo isso procede do dom do Espírito Santo que desce sobre Ela (cf. 1,35), e que descerá sobre os Apóstolos, segundo a promessa de Cristo (cf. At 1,8). Essa imagem de Maria, que nos dá São Lucas, apresenta Nossa Senhora como modelo de cada fiel que conserva e se coloca frente às palavras e ações de Jesus, atitude que é sempre um progredir no conhecimento de Jesus.

Nos passos do Beato Papa João Paulo II (cf. Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae), podemos dizer que a oração do Rosário tem seu modelo exatamente em Maria, porque consiste no contemplar os mistérios de Cristo em união espiritual com a Mãe do Senhor. A capacidade de Maria de viver do olhar de Deus é, por assim dizer, contagiante. O primeiro a fazer tal experiência é São José. O seu amor humilde e sincero pela sua prometida esposa e a decisão de unir sua vida à de Maria atraiu e introduziu também a ele, que já era um "homem justo" (Mt 1,19), em uma singular intimidade com Deus. De fato, com Maria e depois, sobretudo, com Jesus, ele começa um novo modo de relacionar-se com Deus, de acolhê-lo na própria vida, de entrar no seu projeto de salvação, cumprindo sua vontade. Após ter seguido com confiança a indicação do anjo – "não temas receber Maria por esposa" (Mt 1,20) –, ele tomou consigo a Maria e partilhou sua vida com ela. Verdadeiramente, doou totalmente a si mesmo a Maria e a Jesus, e isso o conduziu rumo à perfeição da resposta à vocação recebida. O Evangelho, como sabemos, não conservou nenhuma palavra de José: a sua é uma presença silenciosa, mas fiel, constante, operosa. Podemos imaginar que também ele, bem como sua esposa e em íntima comunhão com ela, viveu os anos da infância e adolescência de Jesus desfrutando, por assim dizer, da sua presença na família. José cumpriu plenamente sua missão paterna, em todos os aspectos. Seguramente educou Jesus à oração, juntamente com Maria. Ele, em particular, O terá levado consigo à sinagoga, nos ritos do sábado, bem como a Jerusalém, para as grandes festas do Povo de Israel. José, segundo a tradição hebraica, terá presidido à oração doméstica, tanto a cotidiana – pela manhã, à noite, nas refeições –, quanto a dos principais acontecimentos religiosos. Assim, no ritmo das jornadas transcorridas em Nazaré, entre a simples casa e a oficina de José, Jesus aprendeu a alternar oração e trabalho, e a oferecer a Deus também o cansaço para ganhar o pão necessário à família.

E, enfim, outro episódio que vê a Sagrada Família de Nazaré reunida em um evento de oração. Jesus, conforme escutamos, aos doze anos, dirige-se com os seus ao Templo de Jerusalém. Esse episódio coloca-se no contexto da peregrinação, como sublinha São Lucas: "Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa" (2,41-42). A peregrinação é uma expressão religiosa que se nutre de oração e, ao mesmo tempo, alimenta-a. Aqui se trata daquela peregrinação pascal, e o Evangelista faz-nos observar que a família de Jesus a vive a cada ano, para participar dos ritos na Cidade Santa. A família hebraica, bem como aquela cristã, reza na intimidade doméstica, mas reza também junto com a comunidade, reconhecendo-se parte do Povo de Deus em caminho, e a peregrinação expressa justamente esse "estar em caminho" do Povo de Deus. A Páscoa é centro e o cume de tudo isso, e envolve a dimensão familiar e aquela do culto litúrgico e público.

No episódio de Jesus aos doze anos, são registradas também as primeiras palavras do Senhor: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?" (Lc 2,49). Após três dias de busca, os seus pais encontram-No no Templo, sentado entre os Mestres, que o escutavam e interrogavam (cf. 2,46). À pergunta sobre o porquê fez isso com seu pai e sua mãe, Ele responde que fez somente aquilo que deve fazer o Filho, isto é, estar junto ao Pai. Assim, Ele indica quem é o verdadeiro Pai, qual é a verdadeira casa, que Ele não fez nada de estranho, de desobediente. Permaneceu onde deve estar o Filho, isto é, junto ao Pai, e sublinhou quem é o seu Pai. A palavra "Pai" destaca, portanto, o acento dessa resposta, aparecendo todo o mistério cristológico. Essa palavra abre, portanto, o mistério, é a chave do mistério de Cristo, que é o Filho, e abre também a chave do mistério nosso como cristãos, que somos filhos no Filho. Ao mesmo tempo, Jesus ensina-nos como ser filhos, exatamente no estar com o Pai em oração. O mistério cristológico, o mistério da existência cristã está intimamente ligado, fundado na oração. Jesus ensinará, um dia, seus discípulos a rezar, dizendo a eles: quando rezardes, dizei "Pai". E, naturalmente, não o dizei somente com uma palavra, mas dizei-o com a vossa existência, aprendei sempre mais a dizer com a vossa existência: "Pai"; e, assim, sereis verdadeiros filhos no Filho, verdadeiros cristãos.

Aqui, quando Jesus está ainda plenamente inserido na vida da família de Nazaré, é importante notar a ressonância que pode ter tido nos corações de Maria e José ouvir da boca de Jesus aquela palavra "Pai", revelando, sublinhando quem é o Pai, e ouvir da sua boca essa palavra com a consciência do Filho Unigênito, que exatamente por isso desejou permanecer três dias no templo, que é a "casa do Pai". Desde então, podemos imaginar, a vida na Sagrada Família foi então mais plena de oração, porque, do coração de Jesus menino – e depois adolescente e jovem –, não cessará mais de se difundir e refletir nos corações de Maria e José este senso profundo da relação com Deus Pai. Esse episódio mostra-nos verdadeira situação, a atmosfera do ser com o Pai. Assim, a Família de Nazaré é o primeiro modelo da Igreja em que, em torno da presença de Jesus e graças à sua mediação, vivem todos a relação filial com Deus Pai, que transforma também as relações interpessoais, humanas.

Queridos amigos, é por esses diversos aspectos que, à luz do Evangelho, brevemente traçados, a Sagrada Família é ícone da Igreja doméstica, chamada a rezar em união. A família é Igreja doméstica e deve ser primeira escola de oração. Na família, as crianças, desde a mais tenra idade, podem aprender a perceber o senso de Deus, graças ao ensino e ao exemplo dos pais: viver em uma atmosfera marcada pela presença de Deus. Uma educação autenticamente cristã não pode prescindir da experiência de oração. Se não se aprende a rezar em família, será depois difícil preencher esse vazio. E, portanto, gostaria de dirigir a vós o convite a redescobrir a beleza de rezar juntos como família, na escola da Sagrada Família de Nazaré. E, assim, tornar-vos realmente um só coração e uma só alma, uma verdadeira família.


Obrigado!






Ao final da Catequese, o Papa dirigiu-se aos peregrinos de língua portuguesa:
Queridos irmãos e irmãs,

no clima natalício que nos envolve, convido-vos a refletir sobre a oração na vida da Sagrada Família de Nazaré, tomando por modelo Jesus, Maria e José. Como toda a família judaica, os pais de Jesus – tinha ele quarenta dias - sobem ao templo para consagrar a Deus o filho primogênito. Maria ouve lá, do velho Simeão, palavras que lhe anunciam glórias e tribulações. Ela "guardava todas estas coisas no seu coração". Esta capacidade de Maria era contagiante, sendo o seu primeiro beneficiário José. De fato, ele, com Maria e sobretudo depois com Jesus, aprende a relacionar-se de modo novo com Deus, colaborando no seu projeto de salvação. Como era tradição, José presidia à oração doméstica no dia a dia: de manhã, à noite e nas refeições. Assim Jesus aprendeu a alternar oração e trabalho, e a oferecer a Deus o suor e cansaço para ganhar o pão de cada dia. Se uma criança não aprende a rezar em família, este vazio será difícil de preencher depois. Possam todos descobrir, na escola de Nazaré, a beleza de rezarem juntos como família.

Amados peregrinos de língua portuguesa,

a minha saudação amiga, vendo a vossa presença como a ocasião propícia para confiar ao Pai do Céu as vossas famílias e os sonhos de bem que abrigam no coração. Recebei, como penhor de paz e consolação, a minha Bênção Apostólica
.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Catequese do Papa Bento XVI sobre o Natal.

Quarta-feira, 21 de dezembro de 2011, 14h49

Boletim da Santa Sé
Tradução de Nicole Melhado - equipe CN Notícias



CATEQUESE
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 21 de dezembro de 2011


Queridos irmãos e irmãs,

Tenho o prazer de acolhê-los nessa Audiência Geral a poucos dias da celebração do Natal do Senhor. A saudação frequente de todos nesses dias é "Feliz Natal! Boas festas!" Façamos isso de modo que, mesmo na sociedade atual, a troca de saudações não perca seu profundo valor religioso e a festa não seja absorvida por aspectos exteriores, que essas toquem mesmo o coração. Certamente, os sinais externos são lindos e importantes, desde que não nos desviem, mas devem nos ajudar a ver o Natal no seu sentido verdadeiro, aquele sagrado e cristão, de modo que também a nossa alegria não seja superficial, mas profunda.

Com a Liturgia Natalina, a Igreja nos apresenta o grande Mistério da Encarnação. O Natal, de fato, não é simplesmente o aniversário do nascimento de Jesus, é isso também, mas é mais que isso, é a celebração de um Mistério que marcou e continua a marcar a história do homem: o próprio Deus veio habitar em meio a nós (cfr Jo 1,14), se fez um de nós; um Mistério que afeta nossa fé e nossa existência; um Mistério que vivemos concretamente na Celebração Litúrgica, especialmente na Santa Missa.

Qualquer um poderia se perguntar: como é possível que eu viva agora este evento passado há tanto tempo? Como posso participar ativamente do nascimento do Filho de Deus que aconteceu mais de 2000 anos atrás?

Na Santa Missa da Noite de Natal repetimos, no Salmo Responsorial, estas palavras: “Hoje nasceu para nós o Salvador”. Esse advérbio de tempo “hoje” aparece mais vezes nas celebrações natalinas e se refere ao evento do nascimento de Jesus e à salvação que a Encarnação do Filho de Deus traz.

Na Liturgia, tal acontecimento ultrapassa os limites do espaço e do tempo e se torna atual, presente, o seu efeito é contínuo, mesmo com o passar dos dias, dos anos e dos séculos. Indicando que Jesus nasce “hoje”, a Liturgia não usa uma frase sem sentido, mas destaca que este Nascimento investe e permeia toda a história, permanece uma realidade, na qual, também hoje, podemos alcançar justamente na Liturgia. A nós que acreditamos, a celebração do Natal renova a certeza de que Deus está realmente presente em meio a nós, se fez carne e não está distante, é o próprio Pai que está junto a nós naquele Menino nascido em Belém, se aproximando do homem. Nós podemos encontrá-lo agora, num “hoje” que não acabou.

Gostaria de insistir neste ponto, porque o homem contemporâneo, aquele que é sensível, que experimenta empiricamente, faz sempre dificuldade para abrir o horizonte e entrar no mundo de Deus.

A redenção da humanidade vem num momento preciso e identificado na história: no evento de Jesus de Nazaré, mas Jesus é o Filho de Deus, é o próprio Deus que não somente falou ao homem, lhe mostrou sinais admiráveis e o guiou ao longo da história de salvação, mas se fez homem e permaneceu como homem. O Eterno entrou nos limites do tempo e do espaço, para tornar possível “hoje” o encontro com Ele.

Os textos litúrgicos natalinos nos ajudam a entender que os eventos da salvação operados por Cristo são sempre atuais, interessam a cada homem e a todos os homens.

Quando escutamos ou pronunciamos, na celebração litúrgica, que “hoje nasceu para nós o Salvador” não estamos usando um vaga expressão convencional, mas entendemos que Deus nos oferece “hoje”, agora, a mim, a cada um de nós, a possibilidade de reconhecê-lo e acolhê-lo, como fizeram os pastores em Belém, porque Ele nasceu também na nossa vida e a renova, a ilumina com a Sua graça, com a Sua presença.

O Natal, portanto, comemora o nascimento de Jesus em carne, a partir da Virgem Maria – e inúmeros textos litúrgicos fazem reviver aos nossos olhos este ou aquele episódio – é um evento de sucesso para nós.

O Papa São Leão Magno, falando sobre o sentido profundo da Festa de Natal, disse aos seus fiéis: “Alegremo-nos no Senhor, meus queridos, e abramos nossos corações para a mais pura alegria, porque o dia raiou para nós e isso significa a nova redenção, a antiga promessa, a felicidade eterna. Se renova para nós, realmente, o ciclo anual do alto mistério de nossa salvação, que, prometido no início e no final dos tempos, está destinado a não ter fim” (Sermo 22, In Nativitate Domini, 2,1: PL 54,193).

E São Leão Magno, em outra homilia natalina, afirmou: “Hoje, o autor do mundo foi gerado do ventre de uma virgem: aquele que fez todas as coisas se fez filho de uma mulher que ele mesmo criou. Hoje o Verbo de Deus apareceu revestido de carne e, enquanto jamais foi visível aos olhos humanos, se torna, além de visível, palpável. Hoje os pastores escutaram da voz dos anjos que nasceu o Salvador, na substância do nosso corpo e nossa alma” (Sermo 26, In Nativitate Domini, 6,1: PL 54,213).

Existe um segundo aspecto ao qual gostaria de sublinhar brevemente: o evento de Belém deve ser considerado à luz do Mistério Pascal: um e outro são parte de uma única obra de redenção de Cristo.

A Encarnação e o nascimento de Jesus nos convidam já a voltar o olhar em direção a Sua morte e a Sua ressurreição: o Natal e a Páscoa são do mesmo modo festa de redenção.

A Páscoa é celebrada como vitória sobre o pecado e sobre a morte: marca o momento final quando a glória do Homem Deus resplandece como luz do dia. O Natal celebra a entrada de Deus na história, fazendo-se homem para levar novamente o homem a Deus: marca, por assim dizer, o momento inicial, quando se pode ver a luz da aurora.

Assim como a aurora antecede a luz do dia, o Natal anuncia já a Cruz e a glória da Ressurreição. Também como os dois períodos do ano nos quais acontecem as duas grandes festas, ao menos em algumas partes do mundo, podem ajudar a compreender este aspecto.

De fato, enquanto a Páscoa acontece no início da primavera [no hemisfério norte], quando o sol vence as nuvens e densos nevoeiros e renova a face da terra, o Natal cai justamente no início do inverno, quando a luz e o calor do sol não conseguem acordar a natureza; às vezes faz muito frio e é preciso ficar em baixo das cobertas, mas a vida pulsa e começa de novo a vitória do sol e do calor.

Os Padres da Igreja ligavam sempre o nascimento de Cristo à luz de toda obra de redenção, que encontra seu ápice no Mistério Pascal. A Encarnação do Filho de Deus aparece não só como início e condição da salvação, mas como a própria presença do Mistério da nossa salvação: Deus se faz homem, nasce menino como nós, pega da nossa carne para vencer a morte e o pecado.

Dois textos significativos de São Basílio ilustram isso bem. São Basílio dizia aos fiéis: “Deus assume a carne justamente para destruir a morte escondida nela. Como os antídotos dos venenos uma vez ingeridos anulam seus efeitos, como a escuridão de uma casa se desfaz à luz do sol, assim a morte que dominava a natureza humana foi destruída pela presença de Deus. E como o gelo permanece sólido durante a noite, mas logo derrete ao calor do sol, assim a morte que reinou até a vinda de Cristo, graças ao aparecimento de Deus Salvador, o sol da justiça surgiu, “Tragada a morte na vitória” (1 Cor 15,54), não podendo coexistir com a Vida” (Homilia sobre o nascimento de Cristo 2: PG 31,1461).

E ainda, São Basílio, em outro texto, faz este convite: “Celebremos a salvação do mundo, o natal do gênero humano. Hoje foi apagada a culpa de Adão. Portanto, não podemos mais dizer “és pó e em pó te tornarás” (Gen 3,19), mas unido a Ele que veio do Céu, serás admitido no Céu” (Homilia sobre o nascimento de Cristo, 6: PG 31,1473).

No Natal nós encontramos a ternura e o amor de Deus que está acima de nossos limites, nossas fraquezas, nossos pecados e que se abaixa até nós. São Paulo afirma que Jesus Cristo “sendo ele de condição divina (...) esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo, fazendo-se semelhante aos homens" (Fl 2,6-7).

Olhamos a gruta de Belém: Deus se abaixa até o ponto de se deitar numa manjedoura, o que já é um prelúdio da hora da paixão. O cume da história de amor entre Deus e o homem acontece entre a manjedoura de Belém e o sepulcro de Jerusalém.

Queridos irmãos e irmãs, vivamos com alegria o Natal que se aproxima. Vivamos este evento maravilhoso: o Filho de Deus nasce ainda "hoje", Deus está realmente próximo a cada um de nós e quer nos encontrar, quer nos levar a Ele. Ele é a verdadeira luz que remove e dissolve as trevas que envolvem nossa vida e a vida da humanidade. Vivamos o Natal do Senhor contemplando o caminho do amor imenso de Deus que nos eleva a Ele por meio do Mistério da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Seu Filho, pois – como afirma Santo Agostinho – “em [Cristo] a divindade do Unigênito participa da nossa mortalidade, a fim que nós possamos participar de Sua imortalidade” (Epistola 187,6,20: PL 33,839-840).

Sobretudo, contemplemos e vivamos este Mistério na celebração da Eucaristia, centro do Santo Natal; ali está presente de maneira real Jesus, verdadeiro Pão que desceu do Céu, verdadeiro Cordeiro sacrificado para nossa salvação.

Desejo a todos vocês e as vossas famílias uma celebração de Natal realmente cristã, de modo que também todas as felicitações deste dia sejam expressões da alegria por saber que Deus está próximo a nós e quer percorrer conosco o caminho da vida. Obrigado.







Fonte: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=284675